Não sou muito dada a acreditar na sabedoria popular que, supostamente, se concentra em ditados como aquele que diz “não há mal que não venha para o bem”. Mas no caso do triunfo de Donald Trump, talvez seja possível afirmar que, graças às suas ameaças e gestos grotescos, este conseguiu sacudir a consciência mexicana, especialmente em relação aos mais de seis milhões de mexicanos que vivem nos Estados Unidos sem documentos, bem como sobre questões não resolvidas do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio.

 

Este efeito se comprova, claramente, quando se contrasta o elevado número de deportações durante os oito anos de governo de Barak Obama. Apesar dos registros recordes de deportações, o ativismo e as iniciativas de defesa dos migrantes mexicanos se deram a conta-gotas. A maneira concisa de Obama, seu discurso sempre a favor dos direitos humanos, a pretexto de proceder com as deportações como uma demonstração da vontade política, direcionada aos republicanos para poder obter a aprovação da reforma migratória integral e a iniciativa do Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA), adormeceram os reflexos para defender nossas comunidades no exterior. Foram quase três milhões de deportados durante esses oito anos e não houve uma mudança significativa no orçamento do Ministério das Relações Exteriores para fortalecer o trabalho de proteção dos consulados.

 

Tampouco melhoraram orçamentariamente aquelas parcelas da Secretaria de Governança e do Instituto Nacional de Migração destinadas à proteção dos migrantes. Por outro lado, em um cômodo arranjo com a administração Obama, o governo mexicano assumiu o triste papel de “deportador-chefe” de migrantes centro-americanos e deu seguimento à militarização da fronteira sul, porque este é o significado do Plano da Fronteira Sul.

 

No acordo cômodo com o governo Obama, o governo do México assumiu o triste papel de “país com maior deportação” de imigrantes da América Central e passou a militarizar a fronteira sul.

 

O inesperado triunfo de Donald Trump foi um choque de milhares de volts e um deles, saudável. A ilusão de que Trump assumiria um papel presidencial logo se quebrou: cada nomeação, cada Ordem Executiva, cada memorando… comprovavam que a verborragia antimexicana apresentada na campanha seguiria presente nas políticas públicas da nova administração.

 

Na sociedade civil surgiram duas iniciativas notáveis: a Agenda Migrante, impulsionada por Eunice Rendón, Jorge Castañeda e Hector Aguilar Camín; e a Operação Monarca, no Senado da República. Nos Estados Unidos, o trabalho e a experiência acumulada de anos mais ativos nos consulados mexicanos – imediatamente proporcionaram uma grande riqueza de informações sobre os possíveis modus operandi das próximas deportações –, permitiram ativar redes de contatos com as bem organizadas comunidades mexicanas e centro-americanas instituídas “do outro lado”.

 

No Congresso da União, onde não havíamos conseguido mover nem um milímetro do orçamento destinado pela Fazenda às Relações Exteriores, se alcançou o compromisso de dedicar, por parte do Executivo, bilhões de pesos daqueles que o Instituto Nacional Eleitoral havia renunciado para a construção de seu novo edifício para consulados. Membros das Comissões de Relações Exteriores das duas Câmaras percorreram os consulados e conversamos com as polícias locais, com autoridades norte-americanas do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e com titulares de Centros de Detenção, para fazê-los saber que estamos atentos às violações dos direitos dos mexicanos e centro-americanos e iniciamos o diálogo com legisladores locais e federais, unindo forças contra as iniciativas antimexicanas, como no Arizona, ao mesmo tempo, apoiando iniciativas como as “cidades santuário”, na Califórnia.

 

Particularmente, a Agenda Migrante converteu-se em um fórum no qual convergem autoridades governamentais mexicanas dos dois lados da fronteira, organizações de migrantes (também de ambos os lados da fronteira), legisladores, jornalistas e advogados especializados em questões de migração. Esta iniciativa obteve a confiança dos migrantes em risco de serem deportados. Escutamos seus oprimidos testemunhos, suas experiências e frustrações ao tentar voltar a viver no México, suas estadias nos Centros de Detenção, suas petições concretas: defesa jurídica para prolongar a sua estadia nos Estados Unidos, orientação legal para proteger seus filhos e propriedades nos casos de deportação, obtenção dos documentos de identidade apropriados que funcionem no México, oportunidades de reinserção.

 

Uma ironia da história, mas talvez devemos agradecer ao pior presidente da história recente dos Estados Unidos por despertar o México.

 

A realidade logo evidenciou o quão longe se estava de servir adequadamente aos migrantes. As iniciativas e as boas intenções tardam em serem implementadas, os hábitos burocráticos são obstinados em serem banidos e um número cada vez maior de deportados com um perfil diferente da administração anterior, há mais anos vivendo nos Estados Unidos, bem inseridos em suas comunidades e sem ter cometido nenhum delito relevante, evidenciaram o que precisa ser feito e o desafio das autoridades e iniciativas mexicanas.

 

Quanto ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), apenas acrescentaria que a chegada do presidente Trump também tem sido útil para exercer pressão sobre a diferença abismal entre os salários nos Estados Unidos e México. Muito temos denunciado sobre a precariedade do salário mínimo e temos feito campanha para sua melhoria, mas só é levada a sério quando esta injustiça indefensável ameaça a continuidade do NAFTA. Ironias da história, mas talvez tenhamos que agradecer o despertar mexicano ao pior presidente da história recente dos Estados Unidos.