Antes de se tornar candidato à presidência, Donald Trump já era famoso por ter dito que a mudança climática era um complô dos chineses para prejudicar a economia dos EUA. Durante a campanha, insistiu que isso era uma farsa, prometeu derrubar as regulações ambientais estabelecidas pelo ex-presidente Barack Obama, qualificando-as de “estúpidas”, e anunciou que retiraria os EUA do Acordo de Paris sobre a Mudança Climática.

 

Dito e feito: uma semana depois de tomar posse, Trump autorizou a construção de dois oleodutos proibidos por Obama por razões ambientais, o Keystone XL e o Dakota Access. E no dia 28 de março, assinou a ordem executiva que revoga todas as medidas em favor do meio ambiente aprovadas por Obama. Entre outros, eliminou as regras do Plano de Energia Limpa que estabeleciam limites para as emissões de carbono no país.

 

Como disse em um editorial do Washington Post: “Quando as crianças estudarem a presidência Trump, se perguntarão: ‘Como alguém pode ter feito isso?’. É que os EUA são, hoje, um país sem política ambiental”.

 

Quando as crianças estudarem sobre o governo de Trump, elas perguntarão: “Como alguém pode ter feito isso?”, porque agora, os Estados Unidos são um país sem uma política ambiental.

 

No entanto, a decisão sobre a saída do Acordo de Paris foi demorada. No início de maio se anunciou um novo adiamento até o retorno de Trump da cúpula do G7. O mandatário parece ter hesitado diante da polêmica entre seus conselheiros. De um lado estão aqueles que colocam pressão para a saída do Acordo: seu vice-presidente, Mike Pence; seu assessor estratégico, Steve Bannon; e Scott Pruitt, um conhecido inimigo da Agência de Proteção Ambiental (EPA), a quem, para o espanto de todos, Trump nomeou administrador da dita instituição. Bannon é radical: nega que a mudança climática esteja ocorrendo e que, embora Pence e Pruitt não neguem, argumentam que não são as atividades humanas que contribuem para causa-la e promovem os combustíveis fósseis.

 

Do outro lado da disputa estariam a filha e assessora do presidente, Ivanka Trump, e o secretário de Estado, Rex Tillerson, que se preocupam com os efeitos negativos desta saída para as relações internacionais dos EUA.

 

Como é sabido, a comunidade científica, incluindo a NASA, acredita que o dióxido de carbono (um subproduto da queima de combustíveis fósseis em automóveis e fábricas) é um dos principais contribuintes da mudança climática. Os cientistas advertiram que, embora o Acordo de Paris pretenda limitar o aumento da temperatura da Terra a mais dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais para ter uma chance de 66% de chegar a esse limite, é necessário parar agora mesmo todo novo projeto de energia fóssil, começar o declínio desse tipo de energia e adotar sistemas de energia limpa em todo o mundo. Um aumento de mais de três graus, coisa não impossível, produziria mudanças irreversíveis no planeta e consequências catastróficas para a humanidade antes do fim do século.

 

E as más notícias não param: 2016 foi o ano mais quente desde que se têm registros, houve muito mais inundações, tempestades e secas em diferentes partes do mundo. No mês de abril de 2017, pela primeira vez em milhões de anos, a concentração de CO2 na atmosfera chegou a 410 ppm (partes por milhão) no Observatório de Mauna Loa, no Hawaii. Os níveis eram de 280 ppm, em 1958 e passou a 400 ppm em 2013. Se chegar a 450 ppm, as possibilidades de manutenção de um aumento de temperatura de mais do que dois graus centígrados será reduzida a 50 %.

 

Que o atual governo dos EUA se oponha de maneira tão forte às conclusões científicas – uma situação por si só escandalosa e que lembra épocas obscuras da humanidade – não nasce do fato de que Trump e seus funcionários serem ignorantes, sofram de miopia ou estejam loucos, mas de que este é um gabinete plutocrático, cheio de milionários e magnatas que mantêm estreitos laços com as indústrias fósseis e as apoiam, impulsionando uma política egoísta e irresponsável.

 

As medidas de Trump põem em risco os avanços mundiais contra as alterações climáticas, considerando que os EUA são o maior poluidor depois da China. A saída do Acordo de Paris os isolaria no contexto global e traria um efeito cascata, posto que as empresas petrolíferas e as de mineração e os países que têm reservas fósseis teriam a desculpa perfeita para também desconhecer o tratado.

 

A saída do Acordo de Paris deixará o país isolado no contexto global e causará um efeito cascata, pois as empresas de petróleo e mineração e os países com reservas de combustíveis fósseis terão a desculpa perfeita para não reconhecer o acordo.

 

Desistir de controlar as emissões e lançar a indústria fóssil a uma extração acelerada de petróleo, carvão e minerais afetará de maneira direta a América Latina, cujos recursos estão prontos para serem explorados por grandes empresas favorecidas por Trump e que, depois da crise de preços das matérias-primas por conta da desaceleração da China, está desesperada por novos investimentos. Pressupõe retornar a um modelo falido. Além disso, a cooperação internacional para financiar a adaptação às alterações climáticas e sua mitigação na região entrariam em colapso. Mas, mesmo diante deste cenário, a América Latina não deve desistir de defender o planeta diante do maior desafio de sua história: permitir que a Terra seja habitável para as gerações futuras.