UNO Março 2015

Gestão da influência: Inteligência e Assuntos Públicos

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Vamos começar esclarecendo que na maioria das legislações nacionais na América, Europa e muitos outros países de quase todos os continentes se reconhece, de uma forma ou de outra, a legitimidade que empresas e organizações têm na hora de defender, de forma aberta e transparente, seus interesses diante de qualquer processo de natureza legislativa ou normativa.

Na verdade, são esses processos de diálogo e de participação que, graças a um bom conhecimento da realidade social e econômica que pretende regular-se, ajudam a melhorar a eficácia legislativa. Não confundir, portanto, com comportamentos ilícitos que, aproveitando-se de situações de favorecimentos, pretendem a captação privada de recursos públicos, algo proibido igualmente pelos códigos penais dos mesmos países que permitem e reconhecem, com seus limites, o chamado lobby ou advocacy, que, com a sua profissionalização de forma aberta e transparente, vem chamando-se gestão de assuntos públicos ou Public Affairs.

Tanto a análise de inteligência como a atividade de assuntos públicos ou lobby são disciplinas pouco conhecidas

Sendo assim, tanto a análise de inteligência como a atividade de assuntos públicos ou lobby são disciplinas pouco conhecidas pelas organizações ao nosso redor, ainda que ambas comecem a ser imprescindíveis em qualquer processo de planejamento estratégico.

Para influenciar legitimamente o processo de criação de uma norma, seja no Legislativo ou no Executivo, que afeta de um modo direto ou indireto as atividades de uma organização, é necessário, sobretudo, informação e capacidade de antecipação.

Quanto mais tarde se chega ao processo de tomada de decisões, mais complexo será influenciar sobre uma legislação concreta. Por isso, o monitoramento e o trabalho de inteligência que permite a análise contínua do contexto social e político são ferramentas básicas da gestão dos assuntos públicos. A análise de inteligência nos permite sistematizar o modo de aproximação da realidade, de compreendê-la e permite extrair conclusões relevantes e de forma antecipada.

A inteligência aplicada aos negócios nos permite determinar significados e alertar, de forma antecipada, os potenciais riscos ou oportunidades regulatórias que um determinado contexto político pode ter para a nossa organização.

12Muitas vezes, temos a tendência de deixar-nos levar por “conclusões naturais” que partem da experiência, da própria intuição ou da extrapolação a partir de outros casos. No entanto, em ambientes complexos e em rápida mutação, a experiência não é suficiente. Precisamos de uma investigação adequada e uma análise correta para observar as verdadeiras causas e consequências de acontecimentos pontuais e dispersos.

Conhecer o potencial de influência de uma organização, a sua capacidade real de influenciar, sozinha ou com interesses coincidentes, é também uma das chaves de uma boa prática dos assuntos públicos. É necessário analisar de fora da organização o grau de notoriedade, o conhecimento e a valoração que ela tem, bem como o seu nível de credibilidade para o assunto ou assuntos sobre os quais pretendemos exercer influência. Neste caso, o exercício da inteligência exige o estudo da própria organização, seus pontos fortes e fracos, com a mesma distância com que estudamos o contexto e o resto dos atores.

Já na fase de planejamento, uma boa identificação do mapa de influências sobre no que intervir, é o seguinte processo que requer a aplicação de técnicas avançadas de inteligência. É suficiente identificar os atores formais de um processo de decisão? Quantos “influenciadores”, pessoas chaves, mais ou menos na sombra, irão intervir e em que grau de influência no processo que nos afeta? Que opiniões formais expressaram sobre as questões que nos afetam? Mas, acima de tudo, que opiniões informais produziram? Sem responder adequadamente a estas perguntas, que exigem informação branda, informal e de qualidade, nossa estratégia estará dando “voos cegos”.

Uma boa prática de gestão da influência por parte de uma empresa ou organização, econômica ou social, requer um discurso que reconheça, entre os legítimos interesses, que cada ator possa e deva representar aqueles que devem ser o seu limite, mas também parte de sua aspiração, como é a defesa do interesse geral. Não há exercício de influência que não contemple o interesse de todos, como parte do meu próprio e legitimo interesse. Sem este exercício de aproximação de posições não há diálogo possível com autoridades e responsáveis públicos. Estes se devem única e exclusivamente à defesa do que nos é comum.

A influência, que parte de um bom exercício da inteligência, é sempre uma construção de relações onde o privado e público aspiram ganhar legitimamente e gradualmente. É uma conversação respeitosa e inteligente com o ambiente econômico, político e social, sem sacrificar os interesses representados, mas fazendo-os coincidir com os interesses de todos.

As mais modernas técnicas de inteligência aplicadas pelos Governos e grandes corporações para a segurança, defesa nacional, os interesses estratégicos e geopolíticos, estão chegando às empresas em forma de inteligência corporativa, aplicada à tomada de decisões e aos legítimos processos de diálogo entre corporações privadas e interesses e necessidades públicas.

A influência, que parte de um bom exercício da inteligência, é sempre uma construção de relações onde o privado e público aspiram ganhar legitimamente e gradualmente

A maior complexidade de nossos ambientes econômicos, o acelerado ritmo de transformação de nossas sociedades exigiu da inteligência clássica, a serviço dos interesses nacionais, sua transformação mediante novos paradigmas científicos que deixassem de lado a linearidade sequencial do pensamento clássico e aportassem luz sobre a multiplicidade de acontecimentos difusos e contraditórios, igualmente determinantes do nosso entorno.

Esta mesma complexidade é a que envolve os novos processos de produção de organizações e empresas, e também exige respostas sofisticadas através das mais avançadas técnicas de inteligência política e econômica, análises de riscos e, acima de tudo, de processos eficientes de construção desse diálogo com as autoridades públicas que têm sido chamados assuntos públicos, lobby ou apenas gestão da influência.

Joan Navarro
Sócio e vice-presidente de Assuntos Públicos da LLORENTE & CUENCA / Espanha
É sócio e vice-presidente de Relações Públicas da LLORENTE & CUENCA. Sociólogo e PDG graduado pelo IESE, é especialista em comunicação, estratégia eleitoral e assuntos públicos. De 2004 a 2007, foi diretor do gabinete do ministro de Administração Pública, e em 2010 foi reconhecido como uma das 100 pessoas mais influentes pela Revista El País Semanal. É membro do capítulo espanhol do Strategic and Competitive Intelligence Professional (SCIP) e colaborador do jornal El País.
Luisa García
Sócia e CEO para a Região Andina LLORENTE & CUENCA
Especialista em gestão de contas regionais e consultoria estratégica, é Sócia e CEO da LLORENTE & CUENCA na Região Andina. Foi consultora na companhia Issues e desenvolveu projetos de pesquisa acadêmicos com a Confederação Europeia de Relações Públicas. Formada em Publicidade e Relações Públicas pela Universidad Complutense de Madrid, tem pós-graduação nas universidades de Georgetown e Phoenix nos EUA e Adolfo Ibáñez, no Chile. @luisagarcia

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