UNO Setembro 2016

Cuba, três grandes desafios e um destino

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Nunca um país tão pequeno concentrou tanta atenção e paixão em âmbito internacional. Cuba exerce uma atração difícil de descrever. É uma ilha que, tanto pela posição geoestratégica como por sua história passada e presente, foi convidada a ser protagonista dos próximos anos. O descongelamento das relações com os EUA e a histórica viagem do presidente Obama a Havana em março abriram uma nova etapa nas relações bilaterais, bem como nas relações de Cuba com o resto do mundo. Tudo isso, e a necessidade de abrir sua economia ao investimento estrangeiro, está gerando novas dinâmicas internas e externas que fazem com que a ilha volte a ser o centro da atenção do mundo político e econômico internacional.

Estamos testemunhando uma nova era, que tem gerado grandes expectativas, tanto dentro como fora do país. Mas, apesar dos muitos obstáculos e previsíveis tensões nesse complexo processo, a abertura, a modernização e a liberalização de sua economia fazem parte de um movimento sem possibilidade de volta, que deverá enfrentar três grandes desafios.

017_1Em primeiro lugar, a mudança geracional. Os líderes revolucionários, com os irmãos Castro à frente, por questões biológicas têm de dar lugar a uma nova geração de políticos. Uma modificação nada fácil, uma vez que o regime cubano não se caracteriza pelo desenho de processos lineares e transparentes. O processo e o momento da tomada de decisão sempre foram imprevisíveis e não estão isentos de surpresas. O próprio presidente Raúl Castro ratificou, no VII Congresso do Partido Comunista de Cuba, a data dessa mudança (2018), inaugurando a corrida de suposições sobre quem poderá ser seu sucessor. Do lado de fora, sempre se tenta identificar, apontar e até mesmo estimular o possível sucessor, mas é preciso ser prudente nas demonstrações e análises e, quiçá seja mais provável, pensar em uma futura direção em formato de corte colegiada, com alguma figura de prestígio à frente, que tente dar continuidade aos fundamentos socialistas, mas que transite rumo a uma nova forma de governar, mais de acordo com os novos tempos. Um processo de transição política pacífica, que tente conciliar as características de um sistema político fechado em direção a um mais participativo e pluralista, uma decisão que, em qualquer caso, deve ser tomada pelo povo cubano, de forma soberana e sem interferências externas.

O país poderia avançar em direção a um modelo econômico sem sacrificar seus princípios fundamentais, a saber, a igualdade e a redistribuição da riqueza

Em segundo lugar, Cuba tem um inadiável desafio de modernização e de atualização econômica. Sua transição depende, em grande medida, de sua capacidade de desencadear um círculo virtuoso de crescimento, que gere riqueza e prosperidade para o povo cubano, removendo as obsoletas bases de um sistema econômico de outros tempos. O povo cubano tem o direito de deixar para trás 60 anos de excepcionalidade econômica, restrições e penúrias, para construir uma economia social competitiva. O país poderia avançar em direção a um modelo econômico sem renunciar a seus princípios fundamentais, a saber, a igualdade e a redistribuição da riqueza, modernizando suas empresas públicas, potencializando o amplo setor cooperativo do país, os pequenos e médios empreendimentos e os trabalhadores independentes (autônomos). No entanto, tudo isso requer a introdução de critérios de eficácia e eficiência, incentivos e autonomia de gestão, removendo e atualizando o aparelho burocrático que torna ineficiente e obsoleta boa parte do sistema econômico. O país tem bons exemplos de setores e empresas de sucesso na área do turismo, da biotecnologia, dos serviços de saúde e na indústria cultural, uma grande oportunidade para impulsionar e gerir outros segmentos tratores da economia, como é o setor agroalimentar, o da energia, dos transportes ou da infraestrutura.

Tudo isso requer a introdução de critérios de eficácia e eficiência, incentivos e autonomia de gestão, removendo e atualizando o aparelho burocrático

Finalmente, o terceiro grande desafio de Cuba é explorar e valorizar o enorme capital humano que tem e gera. Se há algo que caracteriza Cuba em relação a outros países em desenvolvimento é, precisamente, a formação e a enorme criatividade de sua população. O país tem demonstrado, ao longo das últimas décadas, capacidade de resiliência como nenhuma outra nação do mundo, tudo graças a sua gente. Por esse motivo, seu futuro tem que basear-se em liberar todo o talento, capacidade e potencial de seus jovens para torná-los os atores da nova Cuba.

Em última análise, três desafios titânicos, mas perfeitamente possíveis, que deveriam apontar para um novo horizonte, um novo destino que não é outro senão o de transformar esse potencial, riqueza e pluralidade em um novo projeto coletivo, que situe o país no lugar que lhe corresponde, do ponto de vista político, econômico, social e cultural.

Joan Navarro
Sócio e vice-presidente de Assuntos Públicos da LLORENTE & CUENCA / Espanha
É sócio e vice-presidente de Relações Públicas da LLORENTE & CUENCA. Sociólogo e PDG graduado pelo IESE, é especialista em comunicação, estratégia eleitoral e assuntos públicos. De 2004 a 2007, foi diretor do gabinete do ministro de Administração Pública, e em 2010 foi reconhecido como uma das 100 pessoas mais influentes pela Revista El País Semanal. É membro do capítulo espanhol do Strategic and Competitive Intelligence Professional (SCIP) e colaborador do jornal El País.
Pau Solanilla
Diretor-geral da LLORENTE & CUENCA para Cuba / Espanha
É diretor-geral da LLORENTE & CUENCA para Cuba. É mestre em direção, gestão e organização de empresas, pós-graduado em comércio exterior e gestão de negócios internacionais e tem vasta experiência na internacionalização de empresas, relações públicas e negociações em ambientes internacionais e multiculturais. Fluente em inglês, francês e italiano, trabalhou entre 1999 e 2005 em Bruxelas, na delegação do Parlamento Europeu para América Central e Cuba.

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