UNO Dezembro 2016

O Presidente Trump e a quebra das elites

TRUMP

As sociedades ocidentais – e, precisamente, as mais poderosas – parecem dispor de uma agenda política oculta mal detectada pelas sondagens e pesquisas na qual está incorporado o desígnio de apear do poder a classe dirigente convencional e ir substituindo-as por outras que respondam a ordens populistas. Assim ocorreu em junho de 2016 no Reino Unido quando por estreita margem os britânicos decidiram a saída de seu país da União Europeia. A negativa da ilha a continuar na UE era possível mas em absoluto provável. Não só porque os dois grandes partidos políticos – o conservador e o trabalhista – prescreviam a continuidade na estrutura unitária europeia, mas porque os estudos demográficos indicavam que os cidadãos apostavam também em manter o statu quo internacional de seu país. Davam-se, além disso, circunstâncias que pareciam reter o Reino Unido na UE: a vontade majoritária da Escócia e da Irlanda do Norte diante da hegemonia interna e isolacionista da Inglaterra e, em menor medida, do País de Gales.

David Cameron, no entanto – como fizera com o referendo independentista na Escócia e do qual foi resgatado por seu adversário trabalhista Gordon Brown – convocou uma consulta não juridicamente vinculante ainda que politicamente decisiva e a perdeu. A pergunta de Kipling ressoava em Londres: “O que sabem da Inglaterra os que só conhecem a Inglaterra?”. Cameron e a cúpula não eurocética de seu partido desconheciam o estado de mal-estar no núcleo do país e foram derrotados em seu próprio terreno pelos reacionários dirigentes da UKIP. O leitmotiv dos brexiters consistia numa argumentação elementar: recuperar o controle do Reino Unido perante a erosão de sua soberania por Bruxelas e deter os fluxos migratórios para manter o próprio estilo de vida.

Ao eleitorado não importou comungar com rodas de moinho. A campanha dos eurofóbicos esteve recheada de mentiras e manipulações, até o ponto de, apesar de conseguir a vitória na consulta, seu líder natural, Neil Farage, pedir demissão e seu próprio partido, Partido pela Independência do Reino Unido, consumar-se ao alcançar seu grande objetivo ultranacionalista. A razão última do abandono – ainda em fase de esperar e ver – do Reino Unido da União Europeia, não foi econômica. Foi essencialmente cultural, sentimental, emotiva, sugestiva: as classes trabalhadora e média com expectativas truncadas sentiram-se perdedoras da globalização, que transformou o Ocidente na terra prometida para os mais desfavorecidos, sem que a classe dirigente britânica soubesse sondar e medir corretamente a conjuntura emocional de boa parte dos cidadãos que queriam retirar-se sobre si mesma.

Nos Estados Unidos, guardadas as devidas proporções, ocorreu algo parecido nas eleições presidenciais de 8 de novembro que sagraram Donald Trump presidente. Era possível que acontecesse, mas não parecia provável.

Após oito anos do carismático Obama, como podia supor-se que sua herança consistisse em deixar instalado na Casa Branca um político radical com um perfil mais que notório de xenófobo, misógino, protecionista e antieuropeu?

Os algarismos macroeconômicos dos Estados Unidos não avalizam uma explicação nem só nem principalmente econômica. O desemprego situou-se no novembro passado em apenas 4,9% depois de setenta meses de contínuas baixas; os salários estavam subindo nos dois últimos anos e o mínimo aumentou.

TRUMP 2De novo, como assegura de maneira solvente e bem argumentada Paul Berman, analista da revista nova-iorquina Tablet, “o apoio a Trump não deriva de uma crise econômica, mas de uma crise cultural”. As crises culturais são de valores, de critérios cívicos. Trump teve tantos partidários porque a classe dirigente tradicional deixou de assumir um compromisso autêntico com seus representados e também por o novo presidente estadunidense “dar permissão a seus seguidores para regressar ao tipo de ódio racista que, nas últimas décadas, se considerava inaceitável”. Segue Bernam afirmando que o republicano foi apoiado precisamente “porque é grosseiro, arrogante e violento, o que permite que eles (seus seguidores) também o sejam”.

Produziu-se uma quebra do paradigma que impôs o império do politicamente correto mantido em boa medida pelo sistema de meios de comunicação mais convencionais que combateram Trump com denodo enquanto o novo presidente norte-americano mantinha nas redes sociais uma comunicação paralela.

Seus seguidores no Twitter e noutras redes foram durante a campanha superiores ao número acumulados pelos grandes jornais e cadeias de Nova Iorque e Washington. Com Trump não só se produziu o fracasso da classe dirigente, mas também de um modelo de informação.

Quando Dana Millbank engoliu em maio de 2016 a crônica do ano anterior em que assegurava que era impossível que Trump conseguisse a nomeação pelo Partido Republicano, estava-se produzindo o primeiro sintoma de arteriosclerose midiática nos Estados Unidos, que constitui uma das causas da ilusão de ótica em que se estão desenvolvendo as democracias mais consistentes – até agora– no mundo ocidental.

Neste contexto de crise cultural – naturalmente realimentada pela econômica e pela emigração – não se pode afirmar em absoluto que foram os white trash, também denominados trailer trash – brancos de classe baixa, incultos e isolacionistas – quem levou Trump à presidência dos Estados Unidos. Contribuiu, como paradoxo relativo, uma boa parte dos hispânicos instalados diante dos indocumentados que ameaçam sua zona de conforto e também de mulheres que interiorizaram como razoável e próprio da cultura wasp certo grau de misoginia, como explicou Caroline Sede no site boingboing.net. Para esta escritora, os norte-americanos não aprenderam a “sentir empatia pelas mulheres com defeitos da mesma forma que os homens sentem pelos homens com defeitos”. Hillary Clinton foi medida com mais severidade do que seus oponentes masculinos e Trump tratou-a tão vilmente, com tanta desqualificação, desprezo e insulto, que até um amplo setor de mulheres considerou a democrata como a encarnação de todos os males da casta washingtoniana. As mulheres na política são tidas ainda como “invasoras de espaços” (Nirmal Puwar) e no caso de Clinton isso sucedeu de maneira superlativa. E embora Hillary talvez não tenha sido a melhor candidata democrata, é, como definiu Xavier Mas de Xaxás em La Vanguardia, “um ser inteligente, frio, metódico, pragmático e firme, qualidades que ajudariam qualquer homem e que a ela parecem não servir de muito”.

Chega-se, pois, à conclusão de que estaríamos perante um fenômeno de rebelião dos eleitores – uma rebelião silenciosa e tardiamente detectada– que é mais transversal e de explicação mais complexa do que a que nos servem. O populismo é uma forma de fadiga democrática, de questionamento de seus mecanismos tradicionais, de simplificação dos problemas e de um enfoque hostil para com a classe dirigente que conseguiu – com propostas próprias de uma direita ultranacionalista e protecionista – bolsões eleitorais diferentes que se encontram em estado de mal-estar. Estas características endógenas são consideradas “os velhos demônios do período de entreguerras” e o diagnóstico não é ruim porque foi nesse parêntese entre a Grande Guerra e a de 1939-45 quando surgiram os diversos fascismos, o nazismo e as ditaduras.

Os Estados Unidos eram uma referência – e uma garantia – de que tudo aquilo que foi não voltaria a ser, mas a presidência de Trump faz regressar à política os mais velhos aríetes contra as conquistas da democracia liberal e humanista. Enrique Krauze escreveu no El País que Trump criou um cisma na democracia americana. Escreve exatamente: “O dano à nação já está feito: um cisma político e social tão grave como o da Guerra Civil”, em referência à guerra americana de 1861 a 1865. Para este mexicano liberal e ilustrado, bom conhecedor da realidade dos Estados Unidos, todas as causas para explicar a emergência de Trump são válidas “mas nenhuma se equipara ao efeito letal que tem num povo – efeito comprovado uma e outra vez na história – de abrir passagem a um demagogo”. O presidente norte-americano quebrou a elite, fê-lo com demagogia, com o manejo manjado da comunicação através do populismo e estabeleceu um paradigma de fazer política e de praticá-la de forma radialmente diferente da anterior. Tudo é velho, mas também tudo é novo.

José Antonio Zarzalejos
Jornalista, ex-diretor de ABC e El Correo
Licenciado em Direito pela Universidade de Deusto e jornalista. Foi Diretor do El Correo de Bilbao, Secretário Geral do Vocento e Director do ABC na Espanha. Está ligado à LLORENTE & CUENCA como Assessor externo permanente e foi Diretor Geral da companhia na Espanha. Distinguido com vários prêmios profissionais, tais como o Prêmio Mariano de Cavia, o da Federação das Associações de Imprensa da Espanha, o Javier Godó de Jornalismo e o Luca de Tena. [Espanha]

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