Vivemos em uma realidade caracterizada por uma hiperconectividade tecnológica sem precedentes e, como parte intrínseca disso, a Internet das Coisas ou Internet of Things (IoT) representa uma indiscutível e irreversível convergência do mundo empírico e do mundo digital. A fronteira entre os dois mundos está cada vez mais embaçada: a interconexão de bilhões de máquinas inteligentes, sistemas operacionais, dispositivos e sensores geram e recebem uma insólita quantidade de informações, impactando diretamente a conformação dos espaços sociais, relações interpessoais e modelos de negócios.

Recentemente, a Microsoft comunicou um investimento de US$ 5 bilhões em IoT durante os próximos quatro anos e, com isso, fornecerá aos seus clientes as ferramentas para transformar e inovar suas próprias empresas a partir de soluções interconectadas. A Microsoft é apenas uma das milhares de companhias visionárias que estão se adaptando e inovando diante dessa inevitável realidade. À medida em que as empresas – independentemente de seu tamanho ou setor – puderem avaliar, antecipar e prospectar os riscos emergentes dessa transformação tecnológica, elas não apenas terão maior controle na tomada de decisões em relação à segurança, continuidade e sustentabilidade do negócio, mas também sobre a inovação, lucratividade e novas oportunidades comerciais.

O último relatório da Marsh sobre os Riscos na Comunicação, Mídia e Tecnologia (CMT) para o ano de 2018, revela resultados fascinantes em termos de avaliação de risco e identificação de oportunidades na área de IoT. Por exemplo:

  • Até 2030, haverá uma média de 30 bilhões de dispositivos conectados à IoT e, até o ano de 2050, este número deverá chegar a mais de 100 bilhões de dispositivos.
  • 65% das empresas pesquisadas afirmaram encarar a IoT como uma grande oportunidade no curto prazo (3 a 5 anos) e 50% reiteraram que sua organização já criou ou já fornece produtos e serviços para dispositivos IoT.
  • 52% dos avaliadores de risco afirmaram não saber se os serviços e produtos oferecidos por sua empresa foram usados ​​por outras empresas por meio de dispositivos de IoT.

Este último percentual é particularmente preocupante, pois evidencia o desconhecimento das empresas em relação ao complexo espectro de riscos envolvidos ao fazer parte de um sistema IoT, destacando, em especial, a falta de conhecimento das empresas em relação às perdas financeiras nessa área.

Quase 75% dos entrevistados disseram que os avaliadores de risco são considerados por suas empresas como parceiros-chave para a inovação. Embora seja verdade que o aspecto encorajador deste percentual para especialistas em gestão de risco, não devemos ignorar os grandes desafios de reafirmar nossa relevância no mundo dinâmico, evolutivo e disruptivo da tecnologia. Ou seja, para poder exercer influência direta na tomada de decisões estratégicas das empresas, devemos reiterar e demonstrar nossa expertise para liderar a discussão sobre como essas tecnologias afetarão os perfis de risco e as estratégias comerciais das empresas. E, se ampliarmos este zoom na América Latina há áreas claras para se trabalhar.

  • 74% dos entrevistados da América Latina – frente a 60% em nível global – disseram que necessitavam de mais talentos humanos com experiência em segurança cibernética para gerenciar e analisar a enorme quantidade de dados gerados por soluções de IoT.
  • 34% dos entrevistados na América Latina não tinham as habilidades de suporte técnico necessárias para garantir o sucesso de seus projetos na área da IoT.

Esses números são reveladores, mas, infelizmente, não surpreendentes. Na América Latina, estamos em desvantagem em comparação aos outros mercados em termos de gerenciamento de risco emergentes e, mais ainda, em riscos definidos pela Comissão do Mercado das Telecomunicações (CMT). Os fatores explicativos dessa lacuna regional excedem as margens dessa análise. No entanto, o mais recente Benchmark de Riscos sintetiza os três principais desafios para a implementação efetiva e estratégica da gestão de riscos na América Latina: (1) cultura e valores da organização (51%); (2) visualização como uma questão de compliance e não como uma estratégia (46%); (3) a falta de conhecimentos-chave sobre sua importância e o valor que essa oferece (46%).

Diante desse panorama regional, que papel os especialistas deveriam arriscar para liderar mudanças e exercer influência direta na tomada de decisões estratégicas das empresas?

  • Capacitação contínua, investigação do mercado local, condução de estudos comparativos e posicionamento como líderes na área. Como dizem, as verdadeiras e transformadoras mudanças surgem de dentro. Dessa forma, podemos implementar, de forma estratégica e eficiente, ferramentas de medição e prospecção e, acima de tudo, personalizar as soluções para as necessidades de cada cliente.

É alarmante a falta de conhecimento das empresas latino-americanas sobre como gerenciar e analisar a enorme quantidade de dados gerados por soluções de IoT

  • É verdadeiramente alarmante a falta de conhecimento das empresas latino-americanas sobre a complexa gama de riscos envolvidos em fazer parte de um sistema de IoT e, acima de tudo, como gerenciar e analisar a enorme quantidade de dados gerados por soluções da área. Este último, além da falta de uma infraestrutura de TI atualizada, é ainda mais preocupante quando as empresas da região registram uma falta de talentos humanos treinados em segurança cibernética, transformação tecnológica e análise e ciência de dados. Nosso papel, portanto, é reiterar a importância da gestão de riscos como um processo integral e determinante em todas os setores da empresa.

Por fim, é imperativo projetar um plano de ação que inclua a incorporação de especialistas em gestão de riscos em áreas-chave do modelo de negócios, como a diretoria, desenvolvimento de produtos, integração de soluções de risco na oferta de produtos e serviços, recrutamento e formação de talentos humanos, promoção de investimento em tecnologias ou aplicações para mitigação de risco.

A chave está em reiterar a gestão de riscos como um tema estratégico, demonstrar o seu valor mediante a aplicabilidade de tal gestão no próprio organograma empresarial e, claro, delinear oportunidades de crescimento e inovação.