A objetividade absoluta não existe, é o que aprende logo de largada quem comete o delicioso desatino de se aventurar pelo jornalismo. A subjetividade emerge na escolha do que será objeto de pauta, do que estará enfocado e do que acabará ignorado, do que aparecerá na foto e do que ficará à sua margem.

A despeito da sequência de julgamentos pessoais envolvidos, trata-se de um processo técnico. Jornalistas são treinados para discernir entre o que possui interesse público e o que tem impacto restrito demais para receber o carimbo sagrado de “notícia”. Sentem-se impulsionados, pelo ofício, a procurar diferentes versões para um mesmo fato, ouvindo pessoas atingidas ou prejudicadas por determinada informação. Tentam, por vezes frustradamente, traduzir o que descobriram em um relato claro e de preferência interessante.

Nesse processo, é claro que às vezes se equivocam como quaisquer profissionais. Esses erros não deslegitimam nem diminuem a importância desse trabalho, cujo resultado, um primeiro rascunho da história, serve de fio condutor para o avanço da sociedade.

A falha mais grave da profissão, na verdade, é não ter conseguido convencer a sociedade de tudo o que foi dito acima.

Pois é justamente nesse ponto cego da informação que se firmou o câncer das chamadas fake news. A maioria das pessoas não tem ferramentas para distinguir o que é fruto do jornalismo profissional e o que é uma mentira descarada, formulada com propósito político ou de modo a servir de meio de vida imoral para seu criador.

Essa falta de defesa pública, por assim definir, era uma questão antes marginal. O que a transformou em um grande problema foi o crescimento das redes sociais. Tais plataformas deram a cada pessoa um megafone de tamanho antes conhecido apenas pelos chamados meios de comunicação. Em vez de fomentar o tão debatido e esperado jornalismo cidadão, abriu-se espaço para uma séria crise de confiança, capaz de corroer a sociedade pelas entranhas.

O que fazer?

O problema não será controlado com atitudes de um único ator. Mas é preciso ter claro que a saída passa em grande medida pela própria indústria de informação.

Agir, aqui, não se resume a propagandear a importância do jornalismo profissional e a responsabilidade conexa a ele. Tampouco se limita a exercer a coragem de mudar suas cadeias de produção e distribuição para acompanhar as mudanças de hábito de seu consumidor impulsionadas pela tecnologia.

Isso já não seria tarefa pequena. Só que é preciso mais. Deve-se entender, de verdade, que produção de conteúdo consome dinheiro e que a maneira de ganhar dinheiro para financiar essa produção mudou radicalmente.

Para que não se resumam a substratos de frases de efeito, essas ideias têm de dar origem a mudanças práticas porque a qualidade do jornalismo ancora-se na independência financeira da empresa que o abriga.

Uma dessas mudanças é interna: a cadeia de incentivos que moveu a engrenagem das empresas jornalísticas necessita se adaptar a essa nova realidade. Outra mudança diz respeito à relação dos produtores de conteúdo com o, digamos, mundo exterior. Faz-se necessário ser mais inteligente do que sugere o moto-contínuo do “fazemos assim porque é assim”.

Modestamente, é esse o sentido do caminho que o jornal “Folha de S. Paulo”, no Brasil, tem procurado trilhar. Suas decisões causam debate, para não dizer surpresa, quando vistas isoladamente, mas se inserem numa lógica facilmente compreensível de defesa de sua produção.

O maior jornal brasileiro foi o primeiro a adotar um “paywall poroso”, há seis anos, numa atitude que antecipou em muito a direção do vento no mercado do país. Tem sido, desde então, líder na defesa dos direitos de copyright sobre conteúdo jornalístico, criando obstáculos à cópia ilegal de conteúdo e demandando nos termos da lei os atores que o fazem seguidamente. Assumiu uma rara posição de não aceitar ceder seu conteúdo gratuitamente ao Facebook, segundo os termos do programa Instant Articles.

A Folha de São Paulo tornou-se o primeiro grande jornal do mundo a deixar de atualizar sua página no Facebook, após atitudes da empresa americana que claramente a distanciaram do que se pode considerar uma meta universal do bom jornalismo

Mais recentemente, tornou-se o primeiro grande jornal do mundo a deixar de atualizar sua página nessa rede social, após atitudes da empresa americana que claramente a distanciaram do que se pode considerar uma meta universal do bom jornalismo: levar informação de qualidade ao maior número possível de pessoas.

Mas a coragem de enfrentar essa questão não pode ser monopólio de um único veículo, pois se revelará batalha inglória. Tampouco deve ficar restrita à indústria, já que nem mesmo a defesa aguerrida de seus interesses há de ser capaz de lidar com tamanho problema social.

Restaurar um nível razoável de clareza na informação que circula pelos países exige mudar o modelo de negócios das redes sociais. Não existe paliativo nem meio-termo aqui. É inútil esperar que a iniciativa de mexer nessa estrutura parta das próprias empresas, por motivos que a essa altura já parecem claros. Urge haver atuação estatal, com todos os riscos embutidos nesse tipo de interferência. É preciso criar, dentro das redes sociais, caminhos para responsabilizar quem difunde informação falsa, de maneira que os incentivos hoje colocados para essa prática sejam significativamente diminuídos.

Eleições são momento especialmente favorável a esse tipo de ação pública. Não só pela importância inequívoca do jornalismo na tomada de decisão de milhões de pessoas, mas também porque fica menos turva a fronteira entre desinformação oriunda de ignorância e mentira programada para atingir grande volume de votantes – um crime eleitoral. Países como o Brasil, com 150 milhões de eleitores e uma população altamente engajada no uso de redes sociais, abrigam, em momentos como esse, um capítulo importantíssimo para o futuro da dupla siamesa formada pela democracia e pelo jornalismo profissional.